Foi-me explicando todo o trabalho que eu tinha para fazer, havia ainda porquinhos da Índia, cães, gatos, dois macacos e por fim chegámos a uma sala, no meio desta, uma redoma de vidro especial, segundo ela me explicou, lá dentro estava Carolina, na qual eu não poderia tocar fosse qual fosse a razão.
- Só eu a posso tratar e só eu posso entrar nesta sala, ouviu bem Vítor?
- Perfeitamente doutora.
- Pronto, então ao trabalho.
Saímos da sala, virou-se para mim e perguntou-me:
- Diga-me uma coisa Vítor, vai voltar àquela esplanada logo à noite?
- Talvez, se houver alguma coisa interessante para fazer lá.
- O que é que acha se eu lá estiver?
- Interessantíssimo.
- Então, até logo.
- Até logo doutora.
- Maria João.
- Até logo Maria João.
Nesse dia não consegui pensar mais em galinhas, fiz o meu trabalho e ao fim da tarde voltei para casa, onde me entretive até à hora de me encontrar com a Maria João.
Ela já se encontrava na esplanada quando lá cheguei, reparei que bebia vodka puro, pedi um duplo para mim, conversámos, fez-me imensas perguntas sobre a minha nova casa, que disse adorar conhecer, aproveitei o empolgamento dela e perguntei-lhe:
- Velazquez porquê?
- O papá foi para o México muito novo e casou lá com a minha mãe que era mexicana.
- E o papá ainda vive no México?
- Sim, numa sumptuosa hacienda que fica quase no meio do deserto, aí a umas duas horas de carro da Cidade do México.
- Bonito.
- Não me diga que conhece o papá?
- Não, não.
- Não me diga que é você?
- Sou eu o quê?
- Que vem cá para levar a Carolina.
- Ah, você sabe da história toda?
- Claro, fui eu que fiz os estudos e fui eu que dei a ideia ao papá para roubar a Carolina.
- Mas se você está aqui porque é que não a rouba?
- Porque dava muito nas vistas, assim é muito melhor, eu ajudo-o, você rouba a Carolina e ninguém desconfia de mim.
Elaborámos todo o plano, parecia bastante fácil, no fim do dia fico escondido nos balneários, que são na sala ao lado daquela onde se encontra a Carolina, aí existe uma conduta do ar condicionado, por onde tenho que entrar e sair, depois dirijo-me ao segundo andar e saio do edifício pela escada de serviço, contorno-o e nas traseiras terei que cortar a cerca e depois... meio milhão no banco.
- Já que não me convida - disse ela - gostava de conhecer a sua casa.
- Não tenho nada em casa, esquece-se que só lá vou viver três ou quatro dias.
- De qualquer maneira gostava imenso de a conhecer, é que eu vivo com uma amiga, percebeu?
- Claro que percebi.
No outro dia não me podia mexer, fui completamente siderado por aquela dinossaurica mulher, que me virou do avesso durante mais de três horas e me abandonou estendido no meio do chão, vestindo o fato saia e casaco azul escuro e dizendo boa noite, quem é que podia ter uma boa noite depois daquele vendaval. A muito custo arrastei-me para o laboratório e pelo caminho decidi que não poderia fazer amor com a Maria João nas vésperas do dia D.
Encontrei-a a tratar da Carolina e combinámos não nos vermos mais para não levantar suspeitas, a partir desse dia a minha estadia naquela terra foi de uma monotonia atroz, do laboratório para casa de casa para o laboratório, até que o dia chegou, tudo correu como tínhamos combinado, sem qualquer percalço.
Passaram-se dois meses e não apareceu ninguém para vir buscar a Carolina e uns quantos ovos que ela pôs, tenho passado dias intermináveis à espera que alguém apareça, até porque o resto do dinheirinho fazia muito jeito. Bom, levantei-me, fiz uma festa na cabeça ao galináceo, apaguei as luzes e fui-me deitar.
A meio da noite acordei com um barulho no convés do batelão, levantei-me e por uma das escotilhas vi passar um vulto, volvidos poucos segundos soaram três pancadas na porta, perguntei sem me aproximar da porta:
- Quem é?
- Sou eu, João.
Fui abrir.
- Mas, Maria João, o que é que fazes aqui?
- Arre, que tu és difícil de encontrar, só mesmo eu com o meu faro feminino é que te consegui encontrar, o papá pôs meio mundo à tua procura e ninguém deu contigo.
- Ele disse que me encontrariam por isso estava descansado.
- Sim, mas ninguém pensou na hipótese de tu mudares de casa.
- Ainda bem que me encontraste, é que eu já não sei o que é que hei-de fazer à galinha, vais ficar?
- Não, bebo um vodka se me ofereceres mas depois tenho de me ir embora.
- E o resto do dinheiro? - perguntei-lhe
- Amanhã está depositado na tua conta.
Bebeu o vodka rapidamente e desapareceu pela porta fora com a Carolina debaixo do braço sem sequer me dar tempo para lhe dar os ovos que tinha guardados.
De manhã acordei sobressaltado com alguém aos murros e aos pontapés à porta, fui abrir era o pai da Maria João.
- Arre, que você é difícil de encontrar, mudou de casa e não disse nada a ninguém.
- Mudei de casa para não dar nas vistas e além disso como é que queria que o avisasse se eu não tinha nenhum contacto, estive dois meses à vossa espera e agora aparecem-me todos de enfiada.
- Todos?
- Sim você e a sua filha.
- Qual filha?
- Mau, então a Maria João Velazquez, a médica do laboratório, não é sua filha?
- Qual filha qual quê, não me diga que você lhe entregou a galinha?
- Claro, ela sabia a história toda, disse que era sua filha, ajudou-me a roubar a Carolina...
- Mas quem é a Carolina?
- A Carolina é a galinha e a sua filha apareceu aqui ontem á noite para a levar.
- E você seu grande burro entregou-lha, não foi?
- Claro, eu sabia lá, mas ainda tenho ali alguns ovos que ela pôs e que a sua filha se esqueceu de levar.
- Qual filha qual carapuça, vá lá buscar os ovos depressa.
Fui a correr ao meu quarto e trouxe a caixa de madeira onde tinha guardado os ovos e dei-lha.
- Vá lá ao menos, para já, não se perdeu tudo, você é mais burro do que eu pensava, deixar-se enganar desta forma infantil, dou-lhe quarenta e oito horas para recuperar a galinha se não...
Fez um gesto com o polegar a roçar o pescoço voltou as costas e desapareceu.
Bonito, agora nem galinha nem dinheiro e ainda por cima estou sujeito a ser linchado. Corri para o meu quarto, meti as coisas mais importantes dentro de uma mala, enchi outra com roupa e saí pela porta fora. Apanhei um táxi que passava por ali e pedi ao motorista que me levasse ao aeroporto, pelo caminho tentei lembrar-me de um qualquer sítio para onde pudesse ir e onde nunca mais ninguém me encontrasse. Cheguei ao aeroporto e dirigi-me ao balcão.
- Bom dia, o que deseja? - perguntou-me uma eficiente funcionária com um sorriso matinal de orelha a orelha.
- Ir para um sítio onde ninguém me possa encontrar. Sabe, é que disse à minha mulher que ia comprar cigarros e daqui a nada ela vai andar à minha procura.
- Conheço um sítio espantoso, que visitei com o meu namorado nas férias, Suriname, já ouviu falar?
- Não, não ouvi mas também não tem importância, eu quero é ir-me embora daqui o mais depressa possível.
- Está aqui o seu bilhete e fique descansado que se a sua mulher aparecer eu não lhe digo nada.
- Obrigado você é um anjo, eu depois escrevo-lhe um postal, adeus.
- Só eu a posso tratar e só eu posso entrar nesta sala, ouviu bem Vítor?
- Perfeitamente doutora.
- Pronto, então ao trabalho.
Saímos da sala, virou-se para mim e perguntou-me:
- Diga-me uma coisa Vítor, vai voltar àquela esplanada logo à noite?
- Talvez, se houver alguma coisa interessante para fazer lá.
- O que é que acha se eu lá estiver?
- Interessantíssimo.
- Então, até logo.
- Até logo doutora.
- Maria João.
- Até logo Maria João.
Nesse dia não consegui pensar mais em galinhas, fiz o meu trabalho e ao fim da tarde voltei para casa, onde me entretive até à hora de me encontrar com a Maria João.
Ela já se encontrava na esplanada quando lá cheguei, reparei que bebia vodka puro, pedi um duplo para mim, conversámos, fez-me imensas perguntas sobre a minha nova casa, que disse adorar conhecer, aproveitei o empolgamento dela e perguntei-lhe:
- Velazquez porquê?
- O papá foi para o México muito novo e casou lá com a minha mãe que era mexicana.
- E o papá ainda vive no México?
- Sim, numa sumptuosa hacienda que fica quase no meio do deserto, aí a umas duas horas de carro da Cidade do México.
- Bonito.
- Não me diga que conhece o papá?
- Não, não.
- Não me diga que é você?
- Sou eu o quê?
- Que vem cá para levar a Carolina.
- Ah, você sabe da história toda?
- Claro, fui eu que fiz os estudos e fui eu que dei a ideia ao papá para roubar a Carolina.
- Mas se você está aqui porque é que não a rouba?
- Porque dava muito nas vistas, assim é muito melhor, eu ajudo-o, você rouba a Carolina e ninguém desconfia de mim.
Elaborámos todo o plano, parecia bastante fácil, no fim do dia fico escondido nos balneários, que são na sala ao lado daquela onde se encontra a Carolina, aí existe uma conduta do ar condicionado, por onde tenho que entrar e sair, depois dirijo-me ao segundo andar e saio do edifício pela escada de serviço, contorno-o e nas traseiras terei que cortar a cerca e depois... meio milhão no banco.
- Já que não me convida - disse ela - gostava de conhecer a sua casa.
- Não tenho nada em casa, esquece-se que só lá vou viver três ou quatro dias.
- De qualquer maneira gostava imenso de a conhecer, é que eu vivo com uma amiga, percebeu?
- Claro que percebi.
No outro dia não me podia mexer, fui completamente siderado por aquela dinossaurica mulher, que me virou do avesso durante mais de três horas e me abandonou estendido no meio do chão, vestindo o fato saia e casaco azul escuro e dizendo boa noite, quem é que podia ter uma boa noite depois daquele vendaval. A muito custo arrastei-me para o laboratório e pelo caminho decidi que não poderia fazer amor com a Maria João nas vésperas do dia D.
Encontrei-a a tratar da Carolina e combinámos não nos vermos mais para não levantar suspeitas, a partir desse dia a minha estadia naquela terra foi de uma monotonia atroz, do laboratório para casa de casa para o laboratório, até que o dia chegou, tudo correu como tínhamos combinado, sem qualquer percalço.
Passaram-se dois meses e não apareceu ninguém para vir buscar a Carolina e uns quantos ovos que ela pôs, tenho passado dias intermináveis à espera que alguém apareça, até porque o resto do dinheirinho fazia muito jeito. Bom, levantei-me, fiz uma festa na cabeça ao galináceo, apaguei as luzes e fui-me deitar.
A meio da noite acordei com um barulho no convés do batelão, levantei-me e por uma das escotilhas vi passar um vulto, volvidos poucos segundos soaram três pancadas na porta, perguntei sem me aproximar da porta:
- Quem é?
- Sou eu, João.
Fui abrir.
- Mas, Maria João, o que é que fazes aqui?
- Arre, que tu és difícil de encontrar, só mesmo eu com o meu faro feminino é que te consegui encontrar, o papá pôs meio mundo à tua procura e ninguém deu contigo.
- Ele disse que me encontrariam por isso estava descansado.
- Sim, mas ninguém pensou na hipótese de tu mudares de casa.
- Ainda bem que me encontraste, é que eu já não sei o que é que hei-de fazer à galinha, vais ficar?
- Não, bebo um vodka se me ofereceres mas depois tenho de me ir embora.
- E o resto do dinheiro? - perguntei-lhe
- Amanhã está depositado na tua conta.
Bebeu o vodka rapidamente e desapareceu pela porta fora com a Carolina debaixo do braço sem sequer me dar tempo para lhe dar os ovos que tinha guardados.
De manhã acordei sobressaltado com alguém aos murros e aos pontapés à porta, fui abrir era o pai da Maria João.
- Arre, que você é difícil de encontrar, mudou de casa e não disse nada a ninguém.
- Mudei de casa para não dar nas vistas e além disso como é que queria que o avisasse se eu não tinha nenhum contacto, estive dois meses à vossa espera e agora aparecem-me todos de enfiada.
- Todos?
- Sim você e a sua filha.
- Qual filha?
- Mau, então a Maria João Velazquez, a médica do laboratório, não é sua filha?
- Qual filha qual quê, não me diga que você lhe entregou a galinha?
- Claro, ela sabia a história toda, disse que era sua filha, ajudou-me a roubar a Carolina...
- Mas quem é a Carolina?
- A Carolina é a galinha e a sua filha apareceu aqui ontem á noite para a levar.
- E você seu grande burro entregou-lha, não foi?
- Claro, eu sabia lá, mas ainda tenho ali alguns ovos que ela pôs e que a sua filha se esqueceu de levar.
- Qual filha qual carapuça, vá lá buscar os ovos depressa.
Fui a correr ao meu quarto e trouxe a caixa de madeira onde tinha guardado os ovos e dei-lha.
- Vá lá ao menos, para já, não se perdeu tudo, você é mais burro do que eu pensava, deixar-se enganar desta forma infantil, dou-lhe quarenta e oito horas para recuperar a galinha se não...
Fez um gesto com o polegar a roçar o pescoço voltou as costas e desapareceu.
Bonito, agora nem galinha nem dinheiro e ainda por cima estou sujeito a ser linchado. Corri para o meu quarto, meti as coisas mais importantes dentro de uma mala, enchi outra com roupa e saí pela porta fora. Apanhei um táxi que passava por ali e pedi ao motorista que me levasse ao aeroporto, pelo caminho tentei lembrar-me de um qualquer sítio para onde pudesse ir e onde nunca mais ninguém me encontrasse. Cheguei ao aeroporto e dirigi-me ao balcão.
- Bom dia, o que deseja? - perguntou-me uma eficiente funcionária com um sorriso matinal de orelha a orelha.
- Ir para um sítio onde ninguém me possa encontrar. Sabe, é que disse à minha mulher que ia comprar cigarros e daqui a nada ela vai andar à minha procura.
- Conheço um sítio espantoso, que visitei com o meu namorado nas férias, Suriname, já ouviu falar?
- Não, não ouvi mas também não tem importância, eu quero é ir-me embora daqui o mais depressa possível.
- Está aqui o seu bilhete e fique descansado que se a sua mulher aparecer eu não lhe digo nada.
- Obrigado você é um anjo, eu depois escrevo-lhe um postal, adeus.


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