Cinema
Todos os domingos por volta da uma e meia da tarde saía de casa com o meu avô para ir para o cinema, ele vestido com um fato preto, camisa branca e laço, com os sapatos e a careca a brilhar seguia no seu passo de fiscal do cinema lá da terra e eu pela rua fora aos saltinhos ao seu lado, disfrutava já da alegria do filme que iria ver essa tarde, eram trezentos metros de alcatrão de nossa casa até ao cinema, ao virar da esquina lá estava ele com a sua fachada cor de casca de ovo desbotado, aqui e ali com manchas negras da húmidade do ultimo inverno, as grandes portas e janelas castanhas e no alto em letras bem grandes CINE TEATRO S.JORGE.
Entrávamos por uma pequena porta lateral para o frio escuro que fazia lá dentro, então abriamos as portas onduladas de metal e deixávamos entrar o sol no átrio, corriam-se as cortinas e à nossa frente no escuro um gigantesco e misterioso écran branco, como que pedindo vida, pairava por cima das intermináveis filas de cadeiras de madeira da plateia.
O meu avó rodava o botão do quadro eléctrico e como um bafo de vida a sala inundavasse de luz, estava tudo preparado para quando os funcionários chegassem se começasse a vender bilhetes e as pessoas começassem a ocupar os seus lugares, a sessão começava ás três em ponto. Escondido no corredor dos camarotes, esperava pacientemente que o filme começasse, eram momentos de uma angústia mágica mas a minha idade não me permitia estar sentado numa cadeira.
Apagavam-se as luzes, o écran ganhava vida e eu começava a sonhar, com cowboys e índios, a Claudia Cardinal e a Raquel Welch, os saltos de telhado para telhado do Jean Marais, com leões e gladiadores, Kirk Douglas, John Wayne a quem nunca caía o chapéu.
O filme acabava, as luzes acendiam-se, as pessoas saíam e tudo ficava como dantes, mas agora com o perfume de um sonho. Voltava para casa a flutuar e a magia prolongava-se enquanto contava o filme à minha avó.
À noite na minha cama revia o filme na escuridão e adormecia a brincar com os meus heróis.
O cinema ainda lá está, mal tratado com filmes de qualidade duvidosa em cartaz e na maior parte das vezes sem ninguém, ele que mesmo vazio encheu os meus sonhos.


3 Comments:
sabes ainda hoje se entro m velhas salas de concerto o de cinema eu lembro-me desses momentos e tambem quando bricava no palco depois do filme. beijinhos
Olha escrevi aqui também uma história relacionada com a tua e no mesmo local, mas como sou um "velho nabo" nisto de internet e informatica, não consegui enviar-te. Apagou-se agora estou a escrever novamente para ver se consigo. Um abraço racsO
Estou satisfeito, consegui e ai vai. Vinte e picos anos antes de tu te teres escondido no velho cinema, eu, e os teus primos da travessa da Alagoa, fizemos um circo nos andaimes da construção do mesmo cinema. Inspiramo-nos num grande circo " Circo Anastazini" que esteve algum tempo no Campo dos Olivais. Eu era o porteiro e recebia os botões "dinheiro" à entrada. Obrigado pela bela recordação. Um GR abraço
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