domingo, outubro 22, 2006

Baralho de cartas

As cartas saltavam das tuas mãos para cima da mesa impulsionadas por uma força mágica e encaixavam-se nos seus lugares, as paciências eram resolvidas a uma velocidade estonteante para a criança que te observava. Aquelas cartas que tantas vezes eu tentei tirar-te às escondidas pois tu não me deixavas brincar com elas e quando conseguia trepava para cima da cadeira e ao alcançar o cume da tua mesa tentava imitar as tuas paciências, coisa que nunca consegui pois ainda hoje não as sei fazer, mas sentia-me importante sentado na tua cadeira, à tua mesa, com as tuas cartas.
Lembro-me tão bem da tua cara severa com olhos de puto que irradiavam amor dizeres-me:
- Cartas é coisa para gente crescida.
E eu ficava triste mas obedecia.
A magia daquelas cartas marcou-me para sempre e o teu amor também, partiste talvez levado por uma fada quem sabe se a esta hora não serás o rei de paus de um qualquer baralho.
Estejas onde estiveres sei que vais ler este livro, este baralho é para ti.
Do teu neto.

1 Comments:

At 4:38 p.m., Anonymous Anónimo said...

No dia que publicaste ou escreveste esta maravilhosa prosa verdadeira o teu avô fez 96 anos e é domingo o dia dele e de cinema. Por coincidência ou de intenção deliberada é a homenagem mais bonita que li até hoje de um neto para o seu avô. E para mim a prenda que quero compartilhar, se não te importas, que eu também lha ofereça. Obrigado Luis

 

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