segunda-feira, dezembro 15, 2008

ABSOLUTAMENTE VODKA







CAROLINA ON MY MIND

Dirigi-me para casa, no escuro das docas alguém me seguia a uma distância razoável, o suficiente para não poder ver o dono daqueles passos. Avistei o batelão onde morava, mas desviei-me e segui por outro caminho, até chegar junto às filas de camiões que proliferam à noite pelas docas, escondi-me atrás de um deles e fiquei à espera, o autor dos passos seguiu em frente sem se deter, continuou o seu caminho como se nada fosse, voltei para trás e fui para casa. Entrei, acendi as luzes e ela ficou iluminada, a razão do meu medo, meia estremunhada com os olhos a piscar, cacarejou, abriu as asas como que a espreguiçar-se, alisou as penas e ficou a olhar para mim, sentei-me em frente a ela e toda a história rocambolesca passou por mim como um sonho.
Há uns três meses mais ou menos estava a passar férias na Cidade do México, fui abordado por dois gorilas de fato escuro e gravata berrante, com óculos escuros e brilhantina no cabelo, que em espanhol me "imploraram" que os acompanhasse; ao virar da esquina esperava-nos uma limousine, onde me fizeram entrar, perguntei-lhes o que é que se passava, ninguém me respondeu, vendaram-me, explicaram-me que não podiam correr riscos.
Passado mais ou menos duas horas o carro parou, tiraram-me a venda, estávamos numa hacienda perdida no meio de nenhures, fui levado para uma sala com ar condicionado onde havia um bar e uma mesa com um buffet. Servi-me de um vodka, enrolei um cigarro e sentei-me calmamente à espera.
O que é que se passará, eu não conheço ninguém no México a não ser duas mulheres com quem tive um relacionamento nocturno ocasional, estou cá há doze dias, não encontro nenhuma razão plausível para que isto me esteja a acontecer.
A porta abriu-se e entrou um homem de meia idade, cabelo grisalho, olhos verdes, vestido com um roupão chinês vermelho com dragões dourados, calças pretas, sapatos de verniz e uma camisa branca com um laço vermelho ás bolinhas amarelas, que me cumprimentou num português correctíssimo.
- Boa tarde.
- Veremos daqui a pouco se a tarde será boa ou não. A que devo a honra deste convite?
- Desculpe as coisas terem sido feitas assim, mas não havia outra maneira.
- Foi muito simpático da sua parte ter-me feito vir até aqui acompanhado por dois simpáticos rapazinhos que se fartaram de falar pelo caminho e que ainda por cima me esclareceram muito bem acerca do assunto desta minha incursão no México rural.
- Vamos então directos ao assunto, para satisfazer essa sua curiosidade. Tenho informações de que num laboratório em Portugal, num local que lhe direi mais tarde, se você aceitar a minha proposta...
- Que espero bem não seja para casar com alguma bactéria assassina dessas que estão agora em voga.
- Não, por favor deixe-me acabar; como estava a dizer nesse tal laboratório, onde se fazem experiências genéticas com animais, aconteceu um caso curiosíssimo, uma degeneração genética fez com que uma galinha pusesse ovos de ouro.
- Essa não, não me trouxe aqui para me contar uma história das mil e uma noites, pois não? Ou será que você é a Sherezade disfarçada de Lobo Mau e quer comer a galinha dos ovos de ouro.
- Bom, o que lhe quero propor é o seguinte, andei a investigar a sua vida...
- Bonito, era só o que me faltava, ainda por cima é coscuvilheiro.
- Pare com isso e deixe-me acabar. Como estava a dizer, andei a investigar a sua vida...
- Porra, desembuche homem, essa parte já ouvi.
- E sei que você não trabalha, vive acima das suas posses e apesar de estar de férias no México está completamente falido.
- Olá, o homem sabe mais do que eu, e...
- E..., tenho um negócio a propor-lhe, meio milhão de contos para me trazer essa deformação genética.
- Onde é que disse que era o laboratório?
- Então, negócio fechado?
- Fechadíssimo, a galinha é toda sua.
- Tem aqui este papel com o número da conta e o nome do banco, onde estão depositados cem mil contos em seu nome, um adiantamento para as primeiras despesas.
Disse-me onde ficava o laboratório, apertou-me a mão e acompanhou-me à porta.
- Mais uma coisa - disse ele pondo a mão no meu ombro - a sua bagagem está no carro, os meus homens vão deixá-lo no aeroporto, onde embarcará no avião das vinte e três horas para Madrid e daí para Lisboa, os bilhetes estão na bolsa da sua mala, boa viagem.
- Está a esquecer-se de qualquer coisa, como é que eu entrego a galinha?
- Não se preocupe, nós saberemos quando a tiver em seu poder e eu próprio irei buscá-la.
- Então, até lá.
Fui conduzido novamente à limousine por aqueles dois simpáticos rapazes, que mais uma vez me puseram uma venda, para que eu não descobrisse o caminho pelo meio do deserto; simpáticos, quando for rico vou arranjar dois rapazinhos assim para me tratarem dos negócios.
Deixaram-me no aeroporto, fiz o check-in e fui ao bar beber um vodka duplo para acalmar, comprei tabaco, fiz um cigarro, ainda estava completamente aparvalhado com aquilo tudo, dei uns estalos na cara para ver se não estava a sonhar e é que não estava mesmo, isto é a sério.
Dormi toda a viagem, aliás como é meu costume sempre que viajo de avião, acordei com Portugal no horizonte, ainda tinha que ir a Madrid e depois voltar para Lisboa, esfreguei as mãos e pensei: galinhas, aí vou eu, o terror das capoeiras.


Fui para uma pensão, queria evitar a minha casa para ninguém me ver. No dia seguinte tratei de arranjar um sítio para morar e reparei num anúncio de um velho batelão transformado para habitar que vinha no jornal, comprei-o e de imediato tratei da mudança sem dizer nada a ninguém e parti.
Aluguei uma casa na zona do laboratório e resolvi ir procurar emprego no mesmo. A muito custo arranjei um lugar de tratador dos animais, o que me deu uma situação privilegiada para a minha operação. Nessa noite resolvi ir passear à beira mar e sentei-me numa esplanada, na mesa ao lado da minha estava uma mulher lindíssima, que não me ligou nenhuma apesar das minhas insinuações, pedi um vodka duplo, mirou-me de lado, pagou e foi-se embora. Deixei-me ficar mais um bocado e depois fui para casa, no outro dia tinha de ir trabalhar, coisa que já não fazia há muito tempo.
De manhã, quando cheguei á estrada que dava acesso ao edifício do laboratório, abrandei o passo e fui observando todos os pormenores exteriores. Um edifício amarelo de três andares, com uma só entrada e uma saída de incêndio num dos lados, o rés-do-chão não tinha janelas, havia um parque de estacionamento àquela hora quase cheio, um jardim a toda a volta do edifício e tudo isto dentro de uma cerca com mais ou menos dois metros e meio de altura. Dirigi-me ao porteiro e pedi para falar com o director de pessoal, com quem tinha combinado encontrar-me para ultimar a minha admissão. Apresentei toda a minha documentação, falsa como convinha, que arranjara no Jota Crocodilo, um velho conhecido meu, que se dedicava a negócios "legais". Depois de tudo resolvido, foram apresentar-me ao meu chefe, que não era um chefe, mas sim uma chefe, Dra. Maria João Velazquez, que olhou para mim com uma cara de espanto, ao que eu retribui com um sorriso onde tentei pôr todo o meu charme.
- Bom dia doutora - disse o director do pessoal.
- Bom dia senhor Gervino.
Que raio, toda a gente aqui tem nomes de origem espanhola, pensei eu.
- Apresento-lhe o nosso novo tratador.
Estendi-lhe a mão que ela apertou, dizendo.
- Muito prazer, Maria João Velazquez.
- O prazer é todo meu.
- Como é que disse que se chamava?
- Não disse, mas o meu nome é Vítor.
- Sem mais nada, só Vítor?
- Sim, só Vítor.
- Okay, Vítor, pronto para começar?
- Sim, claro.
- Já lhe disseram que tipo de animais é que nós temos no nosso laboratório?
- Não, ninguém me disse nada.
- Bem doutora vou retirar-me - disse o director de pessoal fazendo uma vénia. - Bom, venha daí - e começou a caminhar para uma porta do lado oposto àquele por onde eu tinha entrado - vai ter várias espécies de animais para tratar, nós aqui fazemos estudos principalmente com animais que se destinem ao mercado alimentar, coelhos, porcos, galinhas, etc., mas também temos outros animais.

domingo, dezembro 14, 2008

Foi-me explicando todo o trabalho que eu tinha para fazer, havia ainda porquinhos da Índia, cães, gatos, dois macacos e por fim chegámos a uma sala, no meio desta, uma redoma de vidro especial, segundo ela me explicou, lá dentro estava Carolina, na qual eu não poderia tocar fosse qual fosse a razão.
- Só eu a posso tratar e só eu posso entrar nesta sala, ouviu bem Vítor?
- Perfeitamente doutora.
- Pronto, então ao trabalho.
Saímos da sala, virou-se para mim e perguntou-me:
- Diga-me uma coisa Vítor, vai voltar àquela esplanada logo à noite?
- Talvez, se houver alguma coisa interessante para fazer lá.
- O que é que acha se eu lá estiver?
- Interessantíssimo.
- Então, até logo.
- Até logo doutora.
- Maria João.
- Até logo Maria João.
Nesse dia não consegui pensar mais em galinhas, fiz o meu trabalho e ao fim da tarde voltei para casa, onde me entretive até à hora de me encontrar com a Maria João.
Ela já se encontrava na esplanada quando lá cheguei, reparei que bebia vodka puro, pedi um duplo para mim, conversámos, fez-me imensas perguntas sobre a minha nova casa, que disse adorar conhecer, aproveitei o empolgamento dela e perguntei-lhe:
- Velazquez porquê?
- O papá foi para o México muito novo e casou lá com a minha mãe que era mexicana.
- E o papá ainda vive no México?
- Sim, numa sumptuosa hacienda que fica quase no meio do deserto, aí a umas duas horas de carro da Cidade do México.
- Bonito.
- Não me diga que conhece o papá?
- Não, não.
- Não me diga que é você?
- Sou eu o quê?
- Que vem cá para levar a Carolina.
- Ah, você sabe da história toda?
- Claro, fui eu que fiz os estudos e fui eu que dei a ideia ao papá para roubar a Carolina.
- Mas se você está aqui porque é que não a rouba?
- Porque dava muito nas vistas, assim é muito melhor, eu ajudo-o, você rouba a Carolina e ninguém desconfia de mim.
Elaborámos todo o plano, parecia bastante fácil, no fim do dia fico escondido nos balneários, que são na sala ao lado daquela onde se encontra a Carolina, aí existe uma conduta do ar condicionado, por onde tenho que entrar e sair, depois dirijo-me ao segundo andar e saio do edifício pela escada de serviço, contorno-o e nas traseiras terei que cortar a cerca e depois... meio milhão no banco.
- Já que não me convida - disse ela - gostava de conhecer a sua casa.
- Não tenho nada em casa, esquece-se que só lá vou viver três ou quatro dias.
- De qualquer maneira gostava imenso de a conhecer, é que eu vivo com uma amiga, percebeu?
- Claro que percebi.
No outro dia não me podia mexer, fui completamente siderado por aquela dinossaurica mulher, que me virou do avesso durante mais de três horas e me abandonou estendido no meio do chão, vestindo o fato saia e casaco azul escuro e dizendo boa noite, quem é que podia ter uma boa noite depois daquele vendaval. A muito custo arrastei-me para o laboratório e pelo caminho decidi que não poderia fazer amor com a Maria João nas vésperas do dia D.
Encontrei-a a tratar da Carolina e combinámos não nos vermos mais para não levantar suspeitas, a partir desse dia a minha estadia naquela terra foi de uma monotonia atroz, do laboratório para casa de casa para o laboratório, até que o dia chegou, tudo correu como tínhamos combinado, sem qualquer percalço.
Passaram-se dois meses e não apareceu ninguém para vir buscar a Carolina e uns quantos ovos que ela pôs, tenho passado dias intermináveis à espera que alguém apareça, até porque o resto do dinheirinho fazia muito jeito. Bom, levantei-me, fiz uma festa na cabeça ao galináceo, apaguei as luzes e fui-me deitar.
A meio da noite acordei com um barulho no convés do batelão, levantei-me e por uma das escotilhas vi passar um vulto, volvidos poucos segundos soaram três pancadas na porta, perguntei sem me aproximar da porta:
- Quem é?
- Sou eu, João.
Fui abrir.
- Mas, Maria João, o que é que fazes aqui?
- Arre, que tu és difícil de encontrar, só mesmo eu com o meu faro feminino é que te consegui encontrar, o papá pôs meio mundo à tua procura e ninguém deu contigo.
- Ele disse que me encontrariam por isso estava descansado.
- Sim, mas ninguém pensou na hipótese de tu mudares de casa.
- Ainda bem que me encontraste, é que eu já não sei o que é que hei-de fazer à galinha, vais ficar?
- Não, bebo um vodka se me ofereceres mas depois tenho de me ir embora.
- E o resto do dinheiro? - perguntei-lhe
- Amanhã está depositado na tua conta.
Bebeu o vodka rapidamente e desapareceu pela porta fora com a Carolina debaixo do braço sem sequer me dar tempo para lhe dar os ovos que tinha guardados.
De manhã acordei sobressaltado com alguém aos murros e aos pontapés à porta, fui abrir era o pai da Maria João.
- Arre, que você é difícil de encontrar, mudou de casa e não disse nada a ninguém.
- Mudei de casa para não dar nas vistas e além disso como é que queria que o avisasse se eu não tinha nenhum contacto, estive dois meses à vossa espera e agora aparecem-me todos de enfiada.
- Todos?
- Sim você e a sua filha.
- Qual filha?
- Mau, então a Maria João Velazquez, a médica do laboratório, não é sua filha?
- Qual filha qual quê, não me diga que você lhe entregou a galinha?
- Claro, ela sabia a história toda, disse que era sua filha, ajudou-me a roubar a Carolina...
- Mas quem é a Carolina?
- A Carolina é a galinha e a sua filha apareceu aqui ontem á noite para a levar.
- E você seu grande burro entregou-lha, não foi?
- Claro, eu sabia lá, mas ainda tenho ali alguns ovos que ela pôs e que a sua filha se esqueceu de levar.
- Qual filha qual carapuça, vá lá buscar os ovos depressa.
Fui a correr ao meu quarto e trouxe a caixa de madeira onde tinha guardado os ovos e dei-lha.
- Vá lá ao menos, para já, não se perdeu tudo, você é mais burro do que eu pensava, deixar-se enganar desta forma infantil, dou-lhe quarenta e oito horas para recuperar a galinha se não...
Fez um gesto com o polegar a roçar o pescoço voltou as costas e desapareceu.
Bonito, agora nem galinha nem dinheiro e ainda por cima estou sujeito a ser linchado. Corri para o meu quarto, meti as coisas mais importantes dentro de uma mala, enchi outra com roupa e saí pela porta fora. Apanhei um táxi que passava por ali e pedi ao motorista que me levasse ao aeroporto, pelo caminho tentei lembrar-me de um qualquer sítio para onde pudesse ir e onde nunca mais ninguém me encontrasse. Cheguei ao aeroporto e dirigi-me ao balcão.
- Bom dia, o que deseja? - perguntou-me uma eficiente funcionária com um sorriso matinal de orelha a orelha.
- Ir para um sítio onde ninguém me possa encontrar. Sabe, é que disse à minha mulher que ia comprar cigarros e daqui a nada ela vai andar à minha procura.
- Conheço um sítio espantoso, que visitei com o meu namorado nas férias, Suriname, já ouviu falar?
- Não, não ouvi mas também não tem importância, eu quero é ir-me embora daqui o mais depressa possível.
- Está aqui o seu bilhete e fique descansado que se a sua mulher aparecer eu não lhe digo nada.
- Obrigado você é um anjo, eu depois escrevo-lhe um postal, adeus.