Os bonecos da minha avó
Todas as noites acordava, assustado com aquele restolhar no soalho do quarto, ficava quieto na cama, às escuras, com medo, sem saber o que fazer e a seguir as vozinhas, muito baixinho a falar, tão baixinho que eu não conseguia entender o que diziam. Tenho que descobrir o que é isto, mas o medo nem me deixava mexer na minha cama.
Engendrei um plano, pois não dava para aguentar mais tanta curiosidade e tanto terror. E um dia...
O meu quarto era um quarto de passagem entre o hall e outro quarto, “o do fundo”. Deixei a porta de comunicação aberta e as portinholas das janelas dos dois quartos abertas; as janelas eram pequenas e ficavam entre a parede e o esconso dos quartos.
Era uma noite de luar e o branco das paredes reflectia a luz que iluminava o quarto. E quando o relógio da sala começou a bater as doze badaladas da meia noite, eu estava alerta, deitado ao contrário na minha cama, qual posto de vigia no alto de uma montanha de onde se via todo o vale(leia-se o chão do meu quarto). Apurei o ouvido.
A tampa da caixa de cartão castanho que estava sempre no chão, junto à janela, entreabriu-se e de lá de dentro saltaram os bonecos de plástico articulados, aqueles com que eu costumava brincar durante o dia. Eram uns bonequinhos que vinham nas embalagens do “Extra” (detergente) e das farinhas “33” e “Amparo” e que a minha avó vestia com vestidinhos e fatos de crochet.
O primeiro a sair foi um campino com ar atrevidote, aos pulos, a compor a jaqueta e o barrete e que logo se endireitou e estendeu a mão a uma menina com um vestido azul e um chapéu da mesma cor. Correram, saltaram e dançaram.
- Estas noites são muito divertidas, disse o campino.
- Mas perigosas... E hoje há luz a mais. Um dia, ainda nos descobrem, respondeu-lhe a menina.
Vieram outros, juntar-se-lhes, e, no meio de toda aquela festa, saltou da caixa um touro preto que correu para eles. Todos fugiram menos a menina de azul que, paralisada pelo medo, não se mexeu. Ao ver aquilo, o campino, valente, de um salto, colocou-se entre eles e com bravura enfrentou o touro que raspava o chão com a pata dianteira e até deitava fumo pelo nariz. Investiu e o campino esperou-o; o touro estacou a poucos milímetros dele e riu-se:
- Estava a brincar, amigo, mas foi emocionante, não foi?
- Ah, ah, ah!, riu-se o campino. És sempre o mesmo. Bonito, tu e as tuas brincadeiras!
A menina aproximou-se e abraçou o touro.
- Vou-me embora, disse o bonito
- Porquê? Perguntaram todos em coro.
- Está na hora. Além disso, e apesar de o puto brincar comigo, sou o único a quem a avó não fez uma roupinha..., riu-se o Bonito, com os olhos cheios de lágrimas.
Todos o abraçaram com uma lágrima ao canto do olho.
- Está na hora de acordar.
Era a voz da minha avó, lá ao fundo.
Dei um salto da cama e fui direito à caixa; estava tudo arrumado e no sitio.
Não pode ser, eu não sonhei! Aquilo foi real, eu não sonhei...
À tarde, quando voltei da escola fui brincar, e quando abri a caixa... o touro não estava lá e nunca mais apareceu.
Acho que nunca perdoei à minha avó por não lhe ter feito um fatinho de crochet.
Um grande beijo de parabéns do teu neto.

